Araucárias em Urubici: o símbolo da Serra Catarinense

Araucárias em Urubici: o símbolo da Serra Catarinense

Não existe paisagem da Serra Catarinense sem araucária. Ela está em todo lugar — no horizonte, na beira da estrada, nos capões entre os campos, no quintal das casas. Sua silhueta em formato de candelabro é tão característica que, mesmo quem nunca pisou em Urubici, reconhece a árvore de longe. Nós do Sítio Joani vivemos entre araucárias. Elas fazem sombra sobre a casa, soltam pinhões que caem no telhado no outono e atraem gralhas-azuis que fazem barulho desde o amanhecer. Para nós, a araucária não é só uma árvore — é uma vizinha. Neste guia, contamos a história dessa espécie extraordinária, sua biologia, a devastação que quase a extinguiu e por que protegê-la é tão urgente.

Uma árvore de 200 milhões de anos

A Araucaria angustifolia pertence à família Araucariaceae, um grupo de coníferas que surgiu no período Triássico, há mais de 200 milhões de anos — antes mesmo dos dinossauros dominarem a Terra. As araucárias são, literalmente, fósseis vivos. Seus parentes mais próximos existem na Austrália (Araucaria bidwillii), na Nova Caledônia (Araucaria columnaris) e no Chile (Araucaria araucana), testemunhando a época em que esses continentes estavam unidos no supercontinente Gondwana.

A Araucaria angustifolia é a única espécie do gênero nativa do Brasil. Sua distribuição original cobria o planalto sul-brasileiro — do Rio Grande do Sul ao Paraná, passando por Santa Catarina e chegando a pequenas manchas em São Paulo e Minas Gerais. Urubici está no coração dessa distribuição, em uma das áreas onde as condições climáticas são ideais para a espécie.

Biologia da araucária

Porte e longevidade

Uma araucária adulta pode atingir 50 metros de altura — o equivalente a um prédio de 15 andares. O tronco reto e cilíndrico pode ter mais de 2 metros de diâmetro na base. A copa, nos exemplares maduros, assume o formato de candelabro ou guarda-chuva invertido que é marca da espécie.

A longevidade é impressionante. Existem exemplares datados com mais de 500 anos. Algumas estimativas, baseadas na taxa de crescimento e no diâmetro do tronco, sugerem que os maiores exemplares da Serra Catarinense possam ter entre 600 e 800 anos — árvores que já existiam quando Cabral chegou ao Brasil.

Reprodução

A araucária é dioica — existem árvores macho e árvores fêmea, e ambas são necessárias para a reprodução. As árvores macho produzem estróbilos (estruturas que liberam pólen). As fêmeas produzem as pinhas, que após polinização e maturação (18 a 24 meses) contêm os pinhões — as sementes comestíveis.

Cada pinha pode conter 100 a 150 pinhões. Uma árvore fêmea adulta pode produzir 40 a 50 pinhas por ano, o que representa milhares de sementes. Mas a taxa de germinação natural é baixa — a maioria dos pinhões é consumida pela fauna antes de germinar.

O papel ecológico

A araucária é uma espécie-chave nos ecossistemas do planalto serrano. Isso significa que sua presença (ou ausência) afeta diretamente dezenas de outras espécies:

  • Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus): Come pinhões e enterra os que não consome, funcionando como plantadora involuntária. A maioria das araucárias jovens que crescem na serra foi “plantada” por gralhas-azuis que esqueceram onde enterraram a semente.
  • Papagaio-charão (Amazona pretrei): Migra centenas de quilômetros no inverno para se alimentar de pinhão na Serra Catarinense. Sem araucárias em quantidade suficiente, a espécie não sobrevive.
  • Serelepe (Guerlinguetus brasiliensis): O esquilo brasileiro depende do pinhão como alimento principal no outono e inverno.
  • Cutia (Dasyprocta azarae): Também dispersa sementes de araucária, enterrando-as para consumo posterior.

A relação entre a araucária e seus dispersores é tão antiga e interdependente que a extinção de qualquer uma das partes compromete a outra. Sem gralhas-azuis, as araucárias não se regeneram. Sem araucárias, as gralhas não se alimentam.

A devastação: como quase perdemos tudo

A história da araucária no Brasil é, em grande parte, uma história de destruição. A madeira da araucária — clara, leve, resistente e fácil de trabalhar — foi a base da indústria madeireira do Sul do Brasil por quase um século.

Os números

  • Cobertura original: Estima-se que a Floresta de Araucária cobria entre 200.000 e 250.000 km² no Sul do Brasil
  • Cobertura atual: Restam menos de 3% da área original em bom estado de conservação
  • Redução: Mais de 97% da floresta foi derrubada em cerca de 100 anos de exploração

O ciclo da madeira

A exploração começou no final do século XIX e atingiu o pico entre 1930 e 1960. Serrarias se espalharam pelo planalto serrano, e as araucárias — que levam décadas para crescer — eram cortadas em minutos. A madeira era usada em construção civil, fabricação de móveis, caixas, papel e até exportação.

Em Urubici e na Serra Catarinense, a exploração foi intensa. Comunidades inteiras se formaram em torno de serrarias. Quando a madeira acabava em um lugar, a serraria se mudava para o próximo vale. A paisagem que hoje vemos — com campos abertos onde antes havia floresta — é, em parte, resultado dessa devastação.

Proteção legal

A araucária é hoje classificada como criticamente em perigo de extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) e pelo Ministério do Meio Ambiente do Brasil. O corte é proibido por lei desde 2001 (Lei nº 11.428, Lei da Mata Atlântica, complementada por portarias do IBAMA).

Na prática, a proteção legal significou que o corte parou, mas a regeneração é lenta. Uma araucária leva 15 a 20 anos para começar a produzir pinhões e mais de 50 anos para atingir porte adulto. As florestas devastadas no século XX ainda estão se recuperando — e muitas não terão a chance de se recuperar se a fiscalização falhar.

O pinhão: alimento, cultura e economia

O pinhão é a semente da araucária e um dos alimentos mais emblemáticos do Sul do Brasil. Rico em amido, fibras e minerais, era alimento fundamental para os povos indígenas Kaingang e Xokleng que habitavam o planalto serrano antes da colonização europeia.

Colheita e temporada

A queda natural dos pinhões acontece entre março e julho, com pico em abril e maio. Em Santa Catarina, a colheita é regulada por lei — só é permitida a partir de 1º de abril, para garantir que uma parte das sementes caia naturalmente e alimente a fauna.

A colheita tradicional é feita no chão — recolhendo os pinhões que caem das árvores. Subir na araucária para derrubar pinhas verdes é proibido e ecologicamente danoso, pois impede a maturação das sementes e reduz a disponibilidade para a fauna dispersora.

Formas de preparo

Na Serra Catarinense, o pinhão é preparado de diversas formas:

  • Sapecado: Jogado diretamente nas brasas, com a casca, até estourar. O jeito mais tradicional.
  • Cozido: Em água com sal, como um ovo cozido. Simples e gostoso.
  • Entrevero: Misturado com carne seca, linguiça e temperos em uma panela de ferro. Prato tropeiro tradicional.
  • Paçoca de pinhão: Pinhão cozido e socado no pilão com carne seca. Tradição Kaingang preservada.
  • Farofa de pinhão: Pinhão picado refogado com bacon e cebola.
  • Bolo de pinhão: Pinhão cozido e processado como base para massa de bolo.

Para nosso guia completo sobre o pinhão, incluindo receitas e onde encontrar, veja Pinhão Urubici.

O pinhão na economia local

O pinhão movimenta a economia rural da Serra Catarinense no outono e início do inverno. Famílias inteiras participam da colheita, e o produto é vendido nas feiras, mercados e beiras de estrada. Um saco de pinhão de boa qualidade pode representar uma renda significativa para famílias rurais — o que cria um incentivo econômico direto para a preservação das araucárias.

Esse é um dos exemplos mais claros de como a conservação pode caminhar junto com a economia. A árvore viva, produzindo pinhão ano após ano, vale mais do que a mesma árvore derrubada para madeira. O desafio é fazer essa conta chegar a todos os proprietários rurais.

Onde ver araucárias em Urubici

Araucárias estão em toda parte na Serra Catarinense, mas alguns locais oferecem experiências especialmente marcantes:

  • Estrada para o Morro da Igreja: A SC-370 que sobe ao morro passa por áreas com araucárias de grande porte em meio aos campos de altitude. Pare nos acostamentos e observe.
  • Capões de mata nos campos de altitude: As manchas de floresta entre os campos são dominadas por araucárias centenárias. Os maiores exemplares geralmente estão no centro dos capões.
  • Parque Nacional de São Joaquim: A trilha da Pedra Furada atravessa um trecho de floresta de araucária em bom estado de conservação.
  • Estrada Urubici–Bom Jardim da Serra: Araucárias esparsas em meio aos campos, com silhuetas recortadas contra o céu.
  • Propriedades rurais: Muitas fazendas e sítios da região têm araucárias antigas em suas terras. Algumas abrem para visitação — pergunte na cidade.
  • Sítio Joani: Nossas araucárias são parte da paisagem diária. Nossos hóspedes convivem com elas durante toda a estadia.

Significado cultural

A araucária é muito mais do que uma árvore na Serra Catarinense. Ela é símbolo de identidade regional, presença constante na toponímia (Pinheiro, Pinheirinho, Pinhal), na culinária, na arte popular e na memória coletiva.

Para os povos Kaingang e Xokleng, a araucária era — e continua sendo — elemento central da cultura. Os rituais do pinhão, as práticas de manejo da floresta e a relação espiritual com a árvore fazem parte de uma herança cultural que precede a colonização em milhares de anos.

Para quem conhecer mais sobre a relação entre a araucária e a história da região, nosso guia sobre a história de Urubici aprofunda esse tema.

A gralha-azul, dispersora de sementes da araucária, é ave-símbolo do estado do Paraná. Em Santa Catarina, a araucária aparece em brasões, logotipos e na identidade visual de municípios serranos. Em Urubici, é impossível pensar na cidade sem pensar na árvore.

Como ajudar a conservação

  • Não compre madeira de araucária: O corte é ilegal. Se alguém oferecer produtos de madeira de araucária, denuncie ao ICMBio ou à Polícia Ambiental.
  • Compre pinhão de origem legal: Pinhão colhido do chão, dentro da temporada permitida. Pergunte ao vendedor sobre a origem.
  • Apoie propriedades que conservam: Ao escolher hospedagem e passeios na serra, prefira propriedades que mantêm florestas nativas preservadas. É um voto de confiança com o bolso.
  • Plante araucárias: Se tem espaço, plante. A araucária se adapta bem ao cultivo em quintais e jardins de áreas serranas. Leva tempo para crescer, mas é um presente para as gerações futuras.
  • Divulgue: Quanto mais pessoas conhecem a história da araucária, mais aliados a conservação ganha.

Perguntas frequentes

As araucárias de Urubici estão ameaçadas?

Sim. A Araucaria angustifolia está classificada como criticamente em perigo de extinção. Embora o corte seja proibido por lei, as ameaças continuam: invasão de pinus exótico, conversão de habitat, mudanças climáticas e regeneração lenta da espécie. Em Urubici, a situação é melhor do que em muitos outros municípios porque o Parque Nacional de São Joaquim protege uma área significativa, mas a pressão existe.

Posso colher pinhão em Urubici?

A colheita de pinhão em terras públicas é regulada e nem sempre permitida. Em propriedades particulares, o dono pode colher e vender. A temporada oficial em Santa Catarina começa em 1º de abril. Colher pinhão fora de temporada ou derrubar pinhas verdes é proibido e prejudica a regeneração da espécie. Se quiser experimentar pinhão, compre de produtores locais nas feiras e mercados.

Quanto tempo uma araucária leva para crescer?

Uma araucária cresce lentamente. Nos primeiros anos, pode crescer 30 a 50 cm por ano. Leva 15 a 20 anos para começar a produzir pinhões e mais de 50 anos para atingir porte de árvore adulta. Os grandes exemplares que vemos na serra, com 30 a 50 metros de altura, têm entre 200 e 500 anos. Cada árvore centenária cortada é uma perda que levará séculos para ser reposta.

Leitura relacionada


No Sítio Joani, as araucárias são mais do que paisagem — são companhia. Nossos hóspedes acordam com a copa delas na janela, tomam café ouvindo as gralhas-azuis e, no outono, encontram pinhões frescos caídos pelo caminho. Se quer viver essa experiência, conheça a Casa de Campo ou o Chalé. Nos siga no Instagram @sitiourubuci para ver nossas araucárias em todas as estações.

Sítio Joani — hospedagem rural artesanal em Urubici, Serra Catarinense.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *